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Olhos de Gato (Síndrome de Schmid-Fraccaro): Guia Clínico

Resposta Rápida

A Síndrome de Schmid-Fraccaro, popularmente conhecida como “síndrome dos olhos de gato” (CES, do inglês Cat Eye Syndrome), é uma cromossomopatia rara causada pela tetrassomia ou trissomia parcial da região 22pter-22q11 devido a um pequeno cromossomo marcador supranumerário. Sua prevalência estimada é de 1 em 50.000 a 1 em 150.000 nascidos vivos. O achado ocular característico — coloboma iridiano vertical que confere à pupila aparência de fenda — está ausente em até 50% dos casos, o que torna o reconhecimento clínico da síndrome mais amplo do que o nome sugere.


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Base Genética: O Que Causa a Síndrome de Schmid-Fraccaro

A CES resulta de uma aberração cromossômica estrutural no cromossomo 22. Na maioria dos casos, origina-se de uma duplicação invertida do segmento proximal do cromossomo 22, gerando um pequeno cromossomo marcador bissatelitado supranumerário (sSMC).

Mecanismo cromossômico

  • Região afetada: 22pter-22q11.2 (tetrassomia em ~90% dos casos; trissomia parcial nos restantes)
  • sSMC clássico: presente em 82% dos pacientes; desse grupo, 63% em estado homogêneo e 37% em estado de mosaicismo
  • Genes candidatos na região crítica (CESCR): CECR2, SLC25A18, ATP6V1E1 e BCL2L13

O estado de mosaicismo (37% dos casos) explica a ampla variabilidade fenotípica: indivíduos com o sSMC restrito a uma proporção menor de células apresentam manifestações mais leves.

Herança

A síndrome surge, na grande maioria das vezes, de novo — sem histórico familiar prévio. Casos familiares existem, mas são incomuns. O risco de recorrência em gestações subsequentes dos mesmos pais é baixo, embora aconselhamento genético seja obrigatório.


Tríade Clínica Clássica e Frequência Real dos Achados

A CES é historicamente descrita por uma tríade de três achados maiores. Dados de coortes contemporâneas, porém, mostram que a tríade completa ocorre em apenas ~40% dos pacientes:

Achado ClínicoFrequência Reportada
Anomalias pré-auriculares (fossetas, apêndices)70–89%
Malformações anorretais (atresia anal)30–50%
Coloboma iridiano40–60%

Outros achados sistêmicos relevantes:

SistemaAlteraçãoFrequência
CardiovascularComunicação interatrial/interventricular, retorno venoso pulmonar anômalo total (TAPVR)~54%
UrogenitalAgenesia renal unilateral, hidronefrose, refluxo vesicoureteral20–70%
CraniofacialMicrognatia, hipoplasia hemifacial~57%
AuditivoPerda auditiva (condutiva ou mista)28–36%
NeurológicoDeficiência intelectual leve a moderada~50%; grave em ~7%

Manifestações Oftalmológicas: O Que o Profissional Deve Reconhecer

Síndrome do olho de gato causa

O coloboma ocular é o achado que dá nome à síndrome, mas o espectro oftalmológico é significativamente mais amplo. Dados de revisões clínicas recentes indicam:

Coloboma: tipos e distribuição

O coloboma resulta do fechamento incompleto da fissura óptica (fissura coroidal) durante a 5.ª a 7.ª semana do desenvolvimento embrionário. Na CES, pode envolver:

  • Íris: coloboma iridiano inferior ou inferonasal, criando a fenda pupilar característica
  • Corpo ciliar e cristalino: menos frequente; pode afetar a acomodação
  • Coróide e retina: coloboma coriorretiniano, com risco de descolamento de retina
  • Nervo óptico: coloboma do disco óptico, com implicações para a função visual

O coloboma iridiano isolado costuma ter bom prognóstico visual quando não há acometimento do polo posterior. Colobomas que envolvem a mácula ou o nervo óptico resultam em acuidade visual reduzida irreversível.

Outros achados oculares na CES

  • Distúrbios de motilidade ocular e estrabismo: em 29–45% dos pacientes, incluindo Síndrome de Duane
  • Microftalmia unilateral
  • Aniridia
  • Opacidade corneana
  • Catarata congênita
  • Erros refrativos: miopia, astigmatismo e hipermetropia podem acompanhar o quadro
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Protocolo de Avaliação Oftalmológica na CES

A avaliação ocular especializada deve ser iniciada ainda no período neonatal. O protocolo recomendado inclui:

Exame inicial (período neonatal e infância precoce)

  1. Biomicroscopia com lâmpada de fenda — avaliação do segmento anterior: íris, cristalino, córnea
  2. Fundoscopia binocular indireta — delimitação do coloboma coriorretiniano e avaliação do nervo óptico
  3. Refração sob cicloplegia — identificação de erros refrativos que possam causar ambliopia
  4. Avaliação de motilidade ocular — rastreamento de estrabismo e síndrome de Duane
  5. OCT (quando disponível) — delineamento preciso da extensão do coloboma macular e do disco óptico

Manejo continuado

  • Correção óptica precoce de erros refrativos para prevenção de ambliopia
  • Oclusão terapêutica (se ambliopia anisometrópica)
  • Encaminhamento para cirurgia de estrabismo quando indicado
  • Acompanhamento retinológico periódico para rastreamento de descolamento de retina
  • Em casos de fotofobia intensa por coloboma iridiano extenso: óculos com filtros ou lentes de contato terapêuticas

A intervenção cirúrgica direta sobre o coloboma iridiano raramente é indicada, reservando-se para casos de fotofobia grave semelhante à aniridia ou preocupações estéticas significativas.


Diagnóstico: Do Suspeito Clínico à Confirmação Genética

A suspeita clínica é levantada pela combinação de achados fenotípicos. A confirmação é genética:

Via diagnóstica

  1. Cariótipo convencional — identifica o sSMC(22) em ~82% dos casos; pode perder casos de mosaicismo baixo
  2. FISH (hibridização fluorescente in situ) — confirma a origem cromossômica 22 do marcador
  3. Array CGH (hibridização genômica comparativa) — delimita com precisão a extensão da duplicação; método preferencial em centros com acesso
  4. Sequenciamento de exoma completo — recomendado quando há fatores adicionais não explicados pelo sSMC

O estado de mosaicismo presente em 37% dos casos pode resultar em fenótipos atenuados. Em casos suspeitos com cariótipo convencional negativo, o array CGH ou FISH com múltiplas sondas deve ser solicitado.

Diagnóstico diferencial relevante para o profissional de visão

CondiçãoCaracterística Diferenciadora
Coloboma iridiano isoladoSem cromossomopatia; pode ser autossômico dominante (genes PAX6, CHX10, VSX2)
Síndrome CHARGEColoboma + cardiopatia + atresia de coanas + retardo de crescimento + hipoplasia genital + anomalias de orelha; gene CHD7
Síndrome de WaardenburgHeterocromia + surdez + mecha branca; gene PAX3
AniridiaAusência total ou parcial da íris; gene PAX6
Microftalmos com colobomaVariante genética distinta; sem sSMC(22)

Manejo Multidisciplinar: O Papel do Profissional de Saúde Ocular

Fotos de doenças nos olhos de gatos

O manejo da CES é sintomático e coordenado. A equipe típica inclui:

  • Neonatologista / pediatra: coordenação e rastreamento geral
  • Cardiologista pediátrico: investigação de cardiopatias congênitas (presentes em ~54% dos casos)
  • Cirurgião pediátrico: correção de atresia anal e outras malformações abdominais
  • Nefrologista pediátrico: monitoramento de anomalias renais
  • Oftalmologista: avaliação e seguimento do espectro ocular
  • Fonoaudiólogo / otorrinolaringologista: rastreamento e intervenção para perda auditiva
  • Neuropsicólogo / psicopedagogo: suporte ao desenvolvimento cognitivo

Contribuição do optometrista e do óptico

O optometrista tem papel específico no seguimento de longo prazo:

  • Refração periódica — mudanças refrativas ao longo do crescimento são comuns
  • Prescrição de óculos com proteção UV reforçada (colobomas iridianus reduzem a proteção natural contra luz)
  • Lentes de contato terapêuticas ou cosméticas — podem reduzir a fotofobia e, quando desejado pelo paciente, uniformizar a aparência da pupila
  • Medição precisa de DNP e altura de montagem — fundamental para o correto posicionamento óptico das lentes corretivas, especialmente em prescrições com ânulo prismático ou para lentes de alta potência

Para a medição de distância naso-pupilar e altura em pacientes com coloboma, o posicionamento correto é ainda mais crítico, pois erros de centração podem agravar a percepção visual já comprometida pelo coloboma.

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Abordagem ao Paciente com CES na Ótica

Quando um cliente com Síndrome de Schmid-Fraccaro busca atendimento em uma ótica, alguns pontos práticos facilitam o processo:

  • Anamnese dirigida: perguntar sobre o grau de fotofobia, se há coloboma de coróide/retina documentado, e se há prescrição oftalmológica recente
  • Lentes com filtro de luz: tints âmbar ou cinza e lentes fotossensíveis podem aliviar a fotofobia causada pelo coloboma iridiano
  • Lentes de alto índice com AR: para prescrições com cilindros ou prismas, o controle da centração é fundamental
  • Proteção UV total: colobomas iridianus permitem entrada de radiação UV pela área da fenda; lentes com bloqueio UV total são obrigatórias
  • Lentes de contato cosméticas: pacientes adultos com desejo de uniformizar a aparência da pupila devem ser orientados por oftalmologista antes da adaptação de lentes de contato

A acuidade visual do paciente com CES depende diretamente da extensão do coloboma e da presença de complicações associadas. Pacientes com coloboma restrito à íris frequentemente têm acuidade visual normal ou próxima do normal com correção óptica adequada.


FAQ: Perguntas Frequentes sobre a Síndrome dos Olhos de Gato

1. Todo paciente com a síndrome de olhos de gato tem coloboma iridiano?

Não. O coloboma iridiano está presente em apenas 40–60% dos casos. Em até 50% dos pacientes com a síndrome de Schmid-Fraccaro, a íris é morfologicamente normal. O diagnóstico depende de confirmação genética, não exclusivamente do achado ocular.

2. O coloboma iridiano da CES afeta a visão?

Depende da extensão. Colobomas restritos à íris têm impacto visual limitado, mas podem causar fotofobia e glare por entrada de luz não controlada. Colobomas que envolvem coróide, retina ou nervo óptico resultam em escotomas e redução de acuidade que não são corrigíveis com óculos.

3. Pacientes com CES podem usar lentes de contato?

Sim, sob prescrição e supervisão oftalmológica. Lentes cosméticas com pupila artificial podem reduzir a fotofobia e atender à demanda estética. Lentes hidrofílicas de alta transmissibilidade de oxigênio são preferíveis. O oftalmologista deve avaliar a superfície ocular antes da adaptação.

4. A síndrome dos olhos de gato é hereditária?

Na maioria dos casos, surge de novo — sem herança de nenhum dos pais. Casos familiares existem, mas são incomuns. O aconselhamento genético é recomendado para os pais após o diagnóstico.

5. Qual é o risco de descolamento de retina na CES?

Pacientes com coloboma coriorretiniano têm risco elevado de descolamento de retina ao longo da vida. O acompanhamento retinológico periódico é obrigatório. Sintomas como flashes de luz, moscas volantes súbitas ou “cortina” no campo visual exigem avaliação oftalmológica de urgência.

6. Como diferenciar a CES de um coloboma iridiano isolado?

O coloboma iridiano isolado é mais comum e pode ter base genética distinta (autossômica dominante, frequentemente associada ao gene PAX6). A diferenciação exige cariótipo e/ou array CGH. A presença de outros achados da tríade clássica (anomalias pré-auriculares, atresia anal) aumenta fortemente a suspeita de CES.

7. Com que frequência o paciente com CES deve ser avaliado pelo oftalmologista?

Anualmente na infância e adolescência, com ajuste da frequência conforme os achados individuais. Pacientes com coloboma coriorretiniano necessitam de avaliação retinológica semestral ou anual. A presença de estrabismo ou ambliopia exige seguimento ainda mais frequente.

8. Existe tratamento específico para o coloboma ocular da CES?

Não existe intervenção para reverter o coloboma. O manejo é funcional: correção óptica de erros refrativos, tratamento da ambliopia, cirurgia de estrabismo quando indicada, e proteção contra complicações (descolamento de retina). Cirurgia cosmética sobre o coloboma iridiano é rara e reservada para casos selecionados.


Fontes e Referências

  1. Cat-Eye Syndrome — Orphanet (ORPHA:195)
  2. Cat Eye Syndrome (Schmid-Fraccaro Syndrome) — StatPearls, NCBI Bookshelf
  3. Cat-Eye Syndrome: A Report of Two Cases and Literature Review — PMC (2022)
  4. Cat Eye Syndrome with a Unique Liver and Dermatological Presentation — PMC (2023)
  5. Clinical and molecular cytogenetic findings of cat eye syndrome — PMC (2024)