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Inovações Digitais em Optometria: Tecnologias Que Estão Transformando o Cuidado Visual

A optometria digital avança em cinco frentes: telerrefração com precisão validada por estudos clínicos, algoritmos de IA para triagem de retinopatia e DMRI, sistemas de refração automatizada acessíveis em campo, ferramentas de medição óptica com captura 3D do rosto e plataformas de controle da miopia com rastreamento digital de uso. Cada uma dessas frentes tem implicações diretas para o acesso ao cuidado visual, especialmente em países com alta carga de doenças oculares evitáveis como o Brasil.

Telerrefração: O Que Funciona e Onde

A telerrefração consiste em realizar o exame de refração ocular à distância: o paciente senta diante de um equipamento de captura local (autorefrator ou foropter digital) enquanto um optometrista remoto conduz e interpreta o exame em tempo real por videoconferência. O modelo já opera comercialmente nos Estados Unidos e Canadá, onde a plataforma DigitalOptometrics ultrapassou 2 milhões de exames remotos em parceria com redes como Warby Parker, MyEyeDr e America’s Best. Outras plataformas ativas incluem a 20/20NOW (com mais de 500 instalações nos EUA) e o Topcon RDx.

Precisão clínica

Um estudo publicado em 2024 no PLOS ONE, conduzido no Dr. Shroff’s Charity Eye Hospital em Nova Délhi com 222 pacientes (428 olhos) usando o dispositivo Click-Check da Essilor, comparou a telerrefração ao exame presencial. Os resultados mostraram que 84,6% dos olhos alcançaram conformidade aceitável na correção esférica (dentro de ±0,5 D). Em termos de acuidade visual corrigida final, 82% dos pacientes tiveram correspondência entre os dois métodos e cerca de 92% ficaram dentro de 1 linha de diferença na tabela logMAR. A consulta com optometrista remoto em tempo real melhorou a conformidade do equivalente esférico em 14,8% em relação à refração objetiva isolada.

O ponto mais frágil continua sendo a precisão do eixo cilíndrico: apenas 74% dos olhos ficaram dentro da diferença aceitável de 10 graus. Na prática, isso significa que pacientes com astigmatismo significativo ou prescrições complexas ainda precisam do exame presencial.

A AOA (American Optometric Association) reconhece a teleoptometria em sua posição oficial de 2025, mas ressalva que ela “cannot replace in-person comprehensive eye examinations” e que o padrão de cuidado deve ser idêntico ao presencial.

Situação no Brasil

No Brasil, não há evidência de telerrefração comercial em operação. A Lei 14.510/2022 estabeleceu o marco permanente da telessaúde (usando deliberadamente o termo amplo “telessaúde”, não apenas “telemedicina”), cobrindo todas as profissões de saúde regulamentadas. A Portaria GM/MS 3.691/2024 regulamentou a infraestrutura digital do SUS para atendimentos remotos. No entanto, a própria regulamentação da optometria como profissão autônoma no Brasil permanece em disputa: não existe um Conselho Federal de Optometria, e a CBOO (Confederação Brasileira de Óptica e Optometria) atua como associação profissional sem poder regulatório. Até que o status profissional se resolva, a aplicação da Lei 14.510 à telerrefração optométrica no país é incerta.


IA no Diagnóstico Ocular

A inteligência artificial aplicada ao diagnóstico ocular concentra seus casos de uso mais maduros em três condições: retinopatia diabética, degeneração macular relacionada à idade (DMRI) e glaucoma.

Retinopatia diabética

O LumineticsCore (anteriormente chamado IDx-DR) foi o primeiro sistema de diagnóstico autônomo por IA aprovado pela FDA, em 2018, para rastreio de retinopatia diabética sem necessidade de interpretação prévia por especialista. No ensaio clínico pivotal com 900 participantes em 10 centros de atenção primária, que embasou a autorização FDA DEN180001, o sistema atingiu 87,4% de sensibilidade e 89,5% de especificidade.

O EyeArt, da Eyenuk, apresenta desempenho superior no rastreio de casos mais graves: segundo dados da empresa validados em mais de 500.000 pacientes, o sistema alcança 96% de sensibilidade para retinopatia diabética mais que leve e 97% para a forma ameaçadora da visão, com especificidade de 88% e 90%, respectivamente. A validação inclui estudos conduzidos pelo NHS do Reino Unido com mais de 30.000 pacientes.

Diagnóstico de retina por câmara digital e inteligência artificial

DMRI

O projeto europeu I-SCREEN, com orçamento total de €4,7 milhões (dos quais ~€3,45 milhões financiados pela UE via Horizon Europe/EIC Pathfinder, com co-financiamento do UKRI e do SBFI suíço), desenvolve desde janeiro de 2024 um sistema de IA baseado em OCT para detecção precoce e estratificação de risco da degeneração macular. O projeto tem duração de 48 meses e é coordenado pela Prof. Dra. Ursula Schmidt-Erfurth, da Universidade Médica de Viena. O objetivo é disponibilizar triagem de DMRI em consultórios de optometria comunitária, onde câmaras de OCT estão cada vez mais presentes.

Glaucoma

Para glaucoma, não existe ainda nenhum sistema de IA diagnóstica autônoma aprovado pela FDA. A pesquisa ativa combina imagens de campo amplo com OCT: o Optos MonacoPro (sucessor do Monaco, disponível desde março de 2025) captura 200° de superfície retiniana com SLO ultra-widefield e OCT espectral em um único dispositivo. Em pesquisa apresentada na ARVO 2024, o sistema alcançou ROC de 0,98 para razão escavação/disco vertical na distinção entre olhos glaucomatosos e normais. Ainda assim, todos os sistemas disponíveis exigem interpretação por profissional habilitado.

Contexto regulatório no Brasil

A ANVISA regula softwares de saúde como Software como Dispositivo Médico (SaMD) pela RDC 657/2022. Até o momento, não há aprovação específica da ANVISA para sistemas autônomos de triagem de retina por IA no mercado brasileiro, embora o processo regulatório para essa categoria esteja em desenvolvimento.

Ponto crítico: a IA funciona como ferramenta de triagem, não como substituto do exame clínico. O laudo definitivo permanece responsabilidade do profissional habilitado.

Equipamentos de imagem ocular analógica e digital em comparação

Refração Digital

A refração automatizada passou por avanços significativos nos últimos anos, com dispositivos portáteis que aproximam a precisão de sistemas de bancada a custo e tamanho menores.

Aberrometria de frente de onda portátil

O QuickSee Free Pro, da PlenOptika, usa aberrometria de frente de onda para medir a refração objetiva sem a subjetividade do teste de “melhor ou pior” com o paciente. Segundo dados publicados pela empresa, 75% dos pacientes ficam dentro de ±0,25 D e 90% dentro de ±0,5 D, com precisão comparável à de sistemas de bancada de alto custo. O dispositivo foi testado em campo em regiões de difícil acesso, incluindo o Amazonas.

Foropters digitais

Foropters digitais como o Phoroptor VRx (Reichert) e o Visionix VX55 substituem o foropter manual por controles digitais que o optometrista opera remotamente ou via tablet. A principal vantagem clínica é a eliminação do viés de posicionamento de lentes e a integração direta com sistemas de prontuário eletrônico.

Refração por smartphone

Um estudo publicado em 2025 na Frontiers in Bioengineering and Biotechnology avaliou 230 voluntários (460 olhos) usando refração subjetiva via smartphone. O método baseou-se na movimentação progressiva da tela até a visualização nítida de optótipos, calculando o ponto remoto a partir do diâmetro da íris capturado pela câmera frontal. Os limites de concordância para esfera foram de 0,11 ± 0,89 D em relação ao foropter convencional, com AUC de 0,973 para miopia leve. O tempo médio foi de 5 minutos por olho, posicionando a técnica como alternativa para triagem domiciliar.


Medições Ópticas Digitais

As medições necessárias para a montagem de óculos de grau, em especial a distância pupilar (DP) e a altura de segmento para lentes progressivas, foram durante décadas realizadas manualmente com régua e pupilômetro físico. Sistemas digitais mudaram a precisão e, em alguns casos, a logística desse processo.

Sistemas de captura 3D presencial

O ZEISS VISUFIT 1000 usa 9 câmeras mutuamente calibradas para capturar uma visão 180° do rosto do paciente em uma única tomada, processando aproximadamente 45 milhões de pontos de dados por medição. Além de DP e altura de segmento, o sistema captura distância vértice, inclinação pantoscópica e posição da córnea. Segundo um estudo de consumidores encomendado pela ZEISS (2017), 69% dos pacientes retornam a clínicas que oferecem centração digital com instrumentos ZEISS.

O Essilor Visioffice X+ incorpora IA para “autoboxing”, detectando automaticamente a posição dos olhos e da armação durante a medição. Segundo a EssilorLuxottica, essa inovação pode reduzir o tempo de configuração em até 33% em relação ao processo manual.

Aplicativos de smartphone para DP

Um estudo comparativo publicado no Cureus (2023) avaliou três aplicativos de medição de DP (PDCheck AR, Eye Measure e Warby Parker) frente a um pupilômetro digital como padrão-ouro. Eye Measure e Warby Parker tiveram desempenho equivalente, ambos com erro médio absoluto de 0,511 mm. O PDCheck AR ficou significativamente abaixo, com erro de 1,375 mm. Os pesquisadores atribuíram o melhor desempenho dos dois primeiros a instruções mais organizadas, com orientação passo a passo e prompts de posicionamento animados.

Comparativo de métodos de medição de DP

MétodoPrecisão típicaAtendimento remotoHardware necessário
Régua manual±1,0–2,0 mmNãoRégua milimetrada
Pupilômetro digital±0,3–0,5 mmNãoEquipamento dedicado
ZEISS VISUFIT 1000Sub-milimétrica (3D)NãoSistema dedicado (alto custo)
Visioffice X+Alta precisão (3D)NãoSistema dedicado
Apps de smartphone±0,5–1,4 mmSim (autoatendimento)Smartphone do paciente
Medição por foto calibrada±0,5 mmSimSmartphone do paciente

Para ópticas com e-commerce ou atendimento remoto, ferramentas de medição por fotografia calibrada são uma alternativa prática. O Optogrid oferece medição de DP e altura de segmento a partir de fotografias com referência de escala, com precisão de ±0,5 mm, sem necessidade de hardware adicional. É uma opção entre várias para quem precisa integrar a medição ao fluxo de pedidos online.

Interface de sistema de gestão óptica em nuvem

Gestão Clínica em Nuvem

Sistemas de prontuário eletrônico baseados em nuvem centralizam histórico de refrações, imagens de exames (fundoscopia, OCT, topografia), ordens de serviço e comunicação com o paciente em uma única plataforma acessível de qualquer dispositivo conectado. Para consultórios com múltiplos pontos de atendimento, o ganho em consistência de dados e eliminação de retrabalho é imediato.

No mercado brasileiro, plataformas como Optidados e TekÓtica oferecem gestão integrada de vendas, prontuários, ordens de serviço e emissão de nota fiscal eletrônica, com suporte a acesso mobile. O custo de sistemas equivalentes no mercado internacional gira em torno de USD 150 a 500 por profissional por mês, dependendo do nível de integração e do número de usuários.

A principal barreira para adoção segue sendo a integração com sistemas legados: softwares de gestão mais antigos nem sempre exportam dados em formato compatível com novas plataformas, exigindo migração manual de históricos.


Controle de Miopia com Tecnologia

A miopia é a condição refrativa de crescimento mais rápido no mundo. O controle eficaz depende de dois fatores além da prescrição correta: monitoramento do comportamento visual do paciente e adesão ao tratamento. A tecnologia digital está endereçando os dois.

Lentes com rastreamento de uso

A Essilor lançou as lentes Stellest 2.0 com design de dupla potência óptica, apresentando o dobro da potência média do modelo original para maior eficácia no controle da progressão miópica. Para a versão plana (pré-miopia) das lentes Stellest, a empresa documentou que o uso acima de 30 horas por semana está associado a menor alongamento axial. Para monitorar a adesão ao tratamento, a linha Stellest Smartglasses (com lançamento previsto para o primeiro trimestre de 2026 na China Continental) incorpora sensores que rastreiam padrões e tempo de uso.

Rastreio de saúde ocular com tecnologia digital

Rastreadores vestíveis

Dois dispositivos se destacam na pesquisa sobre comportamento visual em crianças com miopia:

Clouclip: clipe acoplado à haste dos óculos que mede a distância de visão a cada 5 segundos e a intensidade luminosa a cada 120 segundos. Quando programado para vibrar ao detectar trabalho de perto em distância inadequada (abaixo de 30 cm por mais de 5 segundos), estudos comportamentais demonstraram melhora na distância média de leitura e redução na duração e frequência do trabalho de perto. É aplicável à faixa pediátrica e está sendo estudado como ferramenta de modificação de hábitos visuais.

Vivior Monitor: dispositivo montado nos óculos que rastreia distância de visão, iluminância, intensidade ultravioleta, movimento da cabeça e postura usando sensores de tempo de voo, acelerômetro, giroscópio e magnetômetro. Desenvolvido inicialmente para pacientes de cirurgia refrativa e de catarata (auxiliando na seleção de LIO e lentes progressivas), foi posteriormente adaptado com o Vivior Myopia Report para estudar o comportamento visual em crianças com miopia.

A combinação de lentes com alta eficácia clínica e rastreadores que verificam adesão representa uma mudança na abordagem do controle da miopia: de prescrição estática para gerenciamento contínuo com dados reais de uso.


Perguntas Frequentes

O que é telerrefração e qual é a sua precisão clínica?

Telerrefração é a realização do exame de refração ocular à distância, com equipamento de captura local e orientação de um optometrista remoto em tempo real. Um estudo publicado no PLOS ONE em 2024 (222 pacientes, dispositivo Click-Check da Essilor) demonstrou que 84,6% dos olhos avaliados alcançaram conformidade aceitável na correção esférica (dentro de ±0,5 D) e que 82% dos pacientes tiveram correspondência na acuidade visual corrigida final entre os dois métodos. A limitação principal está na precisão do eixo cilíndrico (74% dentro de 10 graus), o que indica que casos com astigmatismo significativo ainda requerem exame presencial. Comercialmente, a telerrefração opera principalmente nos EUA e Canadá; não há evidência de implantação comercial no Brasil.

O diagnóstico por IA para retinopatia diabética é confiável?

Os sistemas mais validados apresentam desempenho próximo ao de especialistas humanos em triagem. O LumineticsCore (aprovado pela FDA em 2018) atingiu 87,4% de sensibilidade e 89,5% de especificidade no ensaio pivotal. O EyeArt alcança 96% de sensibilidade para retinopatia mais que leve e 97% para a forma ameaçadora da visão, com validação em mais de 500.000 pacientes globalmente. Em todos os casos, a IA funciona como triagem: o diagnóstico definitivo e o encaminhamento são responsabilidade do profissional de saúde.

Quais dispositivos de refração digital estão disponíveis hoje?

As principais categorias incluem: aberrômetros portáteis (como o QuickSee Free Pro, com 90% de leituras dentro de ±0,5 D), foropters digitais (Phoroptor VRx da Reichert e Visionix VX55) e aplicativos de triagem por smartphone. Há também pesquisa ativa em refração subjetiva via smartphone, com estudos de 2025 mostrando limites de concordância de 0,11 ± 0,89 D frente ao foropter convencional.

Como os sistemas digitais de medição de DP se comparam?

Sistemas 3D presenciais como o ZEISS VISUFIT 1000 (9 câmeras, 45 milhões de pontos de dados por medição) e o Visioffice X+ oferecem a maior precisão para casos complexos. Aplicativos de smartphone variam consideravelmente: um estudo comparativo (Cureus, 2023) mostrou erro médio absoluto de 0,511 mm para os melhores aplicativos (Eye Measure e Warby Parker, com desempenho equivalente) e de 1,375 mm para o PDCheck AR. Ferramentas de medição por fotografia calibrada, com referência de escala física, situam-se em torno de ±0,5 mm e permitem atendimento remoto.

Qual é o status regulatório da teleoptometria no Brasil?

A Lei 14.510/2022 estabeleceu o marco permanente da telessaúde no Brasil, cobrindo todas as profissões de saúde regulamentadas. A Portaria GM/MS 3.691/2024 regulamentou a infraestrutura digital do SUS para atendimentos remotos. No entanto, a regulamentação da optometria como profissão autônoma no Brasil permanece em disputa (não existe um Conselho Federal de Optometria), o que torna incerta a aplicação direta dessas normas à telerrefração optométrica. Para softwares de diagnóstico, a ANVISA regula a categoria como SaMD pela RDC 657/2022, mas não há aprovação específica para sistemas autônomos de triagem de retina por IA no mercado brasileiro até o momento.

Quais tecnologias existem para controle da progressão da miopia?

As principais tecnologias incluem lentes com design óptico específico (como as lentes Stellest 2.0 da Essilor, com dupla potência óptica e rastreamento de adesão via smartglasses), lentes de contato ortoceratológicas monitoradas digitalmente e rastreadores vestíveis como o Clouclip (medição de distância de visão a cada 5 segundos) e o Vivior Monitor (múltiplos parâmetros visuais e ambientais). O monitoramento da adesão ao tratamento é considerado fator crítico para a eficácia, já que o benefício das lentes Stellest foi documentado acima de 30 horas de uso por semana.

Existe sistema de IA aprovado para glaucoma?

Não há, até o momento, nenhum sistema de IA diagnóstica autônoma aprovado pela FDA para glaucoma. A pesquisa combina imagens de campo amplo (como as do Optos Monaco) com análise de OCT para detectar mudanças estruturais no nervo óptico, mas todos os sistemas disponíveis requerem interpretação por profissional habilitado. A área está em desenvolvimento ativo, com publicações recentes avaliando modelos de aprendizado profundo treinados em grandes bancos de dados de OCT.