Um par de progressivas chega ao balcão sem etiqueta, a marcação de tinta já foi limpa e não há ordem de serviço para conferir. Mesmo assim, a lente carrega tudo o que é preciso para identificá-la: duas gravações a laser permanentes, separadas por 34 mm e centralizadas no ponto de referência do prisma (PRP), que resistem à limpeza, à troca de armação e a anos de uso. A gravação sob a marca temporal (lado da orelha) indica a adição em dioptrias; a gravação sob a marca nasal (lado do nariz) identifica fabricante, desenho e índice de material. Uma vez localizadas essas duas marcas, o gabarito de remarcação do fabricante mostra exatamente onde ficam a cruz de montagem, a linha de 180° e o PRP, permitindo remarcar e conferir a lente mesmo sem o pedido original em mãos.
Dois Conjuntos de Marcas, Duas Funções Diferentes
Toda lente progressiva carrega dois sistemas de marcação independentes, e confundir um com o outro é o motivo mais comum de uma lente parecer ter “perdido” seu layout. As marcações de tinta, aplicadas no balcão da ótica, são temporárias e removidas antes de o cliente levar os óculos para casa. Elas incluem a cruz de montagem, a linha de eixo a 180° e os círculos que marcam os pontos de referência de longe e de perto, e todas saem com álcool isopropílico.
As marcações permanentes são outra coisa: gravações semivisíveis feitas na superfície frontal da lente, seja como marca de molde em blocos semiacabados, seja, no caso da maioria das lentes fabricadas hoje, por um laser de excimer que remove uma camada mínima de material da superfície, a mesma técnica de ablação a laser usada em outras etapas da surfaçagem de lentes. Por sobreviverem à limpeza e a anos de uso no rosto do cliente, são elas que servem de referência quando a tinta já se foi.
As Marcas de Alinhamento: 34 mm de Distância, Centralizadas no PRP
As duas marcas de alinhamento, às vezes chamadas de gravações de referência ou micromarcações na documentação dos fabricantes, ancoram tudo o que existe na lente. As diretrizes de marcação de lentes publicadas pelo The Vision Council, elaboradas em conformidade com as normas ANSI Z80.1 e ISO 8980-2, especificam que lentes progressivas trazem “duas marcações de referência de alinhamento formadas por dois pontos, com centros separados por uma distância de 34 mm ± 0,5 mm, equidistantes de um plano vertical que passa pelo PRP e situados na altura do PRP” (The Vision Council, Lens Marking Guidelines). Essa distância aparece em qualquer par de progressivas, independentemente do fabricante ou do desenho óptico, o que torna as marcas uma referência universal e não específica de marca. A norma internacional que ambas as diretrizes citam como fonte é a ISO 8980-2:2004, que trata das especificações para lentes progressivas acabadas e não cortadas.
Em resumo: o ponto de referência do prisma (PRP) não é uma marca visível. Ele fica exatamente no meio das duas gravações de alinhamento, a 17 mm de cada uma, e é o ponto usado para medir o prisma e a espessura de redução por prisma da lente. Ao redor do PRP existe ainda uma zona de exclusão de 30 mm de diâmetro, dentro da qual nenhuma marcação permanente que possa prejudicar a função visual deve aparecer.
Como Ler a Adição e o Código do Fabricante
As duas marcas de alinhamento também ancoram os outros dados permanentes da lente. Segundo as diretrizes do The Vision Council, a adição “deve aparecer diretamente abaixo da marcação de referência temporal”, enquanto uma indicação do fabricante, fornecedor, nome comercial ou marca registrada “deve aparecer… diretamente abaixo da marcação de referência nasal”. A referência técnica da ABDO (Association of British Dispensing Opticians) sobre marcações ocultas em lentes progressivas descreve a mesma convenção do ponto de vista do balcão: “um conjunto típico de marcas de identificação do produto mostra uma gravação temporal, que identifica a adição, e uma gravação nasal, que identifica o desenho do produto e o índice de refração” (ABDO, Hidden Markings on Progressive Power Lenses).
Na prática: lado da orelha, adição; lado do nariz, marca, nome do desenho e índice de material. A lógica é a mesma adotada pelos principais fabricantes que circulam no mercado brasileiro, como Zeiss, Essilor/Varilux, Hoya e Rodenstock, cada um com seu próprio código gravado por linha de produto. As tabelas de identificação distribuídas por entidades do setor, como a que o SindiÓptica-RJ mantém para consulta, reúnem esses códigos por fabricante e por linha, porque uma gravação desconhecida costuma exigir consulta à tabela específica daquela marca em vez de tentativa e erro.
Um detalhe que vale conhecer: quando o laboratório compensa a receita fabricada, aplicando um ajuste de grau durante a fabricação, as diretrizes do The Vision Council determinam que “um símbolo de circunflexo (^) seja colocado abaixo da marcação de referência temporal”, ao lado temporal da gravação de adição, sinalizando que a lente pronta difere intencionalmente do pedido original.
Tabela de Referência das Marcações de Lentes Progressivas
| Marcação | O que é | Onde fica | Para que serve |
|---|---|---|---|
| Marcas de referência de alinhamento | Duas gravações a laser permanentes | 34 mm entre si, 17 mm de cada lado do PRP, na altura do PRP | Reencontrar o PRP e o layout horizontal quando a tinta já foi removida |
| Gravação da adição | Gravação permanente, codificada pelo fabricante | Diretamente abaixo da marca temporal | Informa a adição de perto sem precisar de leitura no lensômetro |
| Gravação de fabricante/desenho | Logo, desenho e código de índice de material gravados | Diretamente abaixo da marca nasal | Identifica marca, desenho da lente e índice de refração |
| Ponto de referência do prisma (PRP) | Ponto de referência, não é um símbolo visível | Ponto médio entre as duas marcas de alinhamento | Onde se mede o prisma e a espessura de redução por prisma |
| Cruz de montagem | Marca de tinta temporária | A uma distância definida pelo fabricante, acima da linha das marcas de alinhamento | Posiciona a lente sobre a pupila do cliente durante a adaptação óptica |
| Linha de 180° | Linha de tinta temporária | Horizontal, passando pelo PRP ou perto dele | Confirma eixo e rotação da lente na armação |
| Zona de exclusão | Área definida, não é uma marca | Círculo de 30 mm centrado no PRP | Nenhuma marcação permanente que prejudique a visão pode aparecer dentro dela |
Como Encontrar e Restaurar as Gravações Ocultas no Balcão
Um tratamento antirrisco ou antirreflexo, que protege a lente, também reduz o contraste das marcas por baixo dele, o que explica por que a ABDO alerta que localizá-las “pode ser bem difícil, principalmente se a lente já recebeu tratamento antirrisco e antirreflexo multicamadas”. Algumas técnicas ajudam:
- Incline a lente sob uma fonte de luz pontual forte, contra um fundo preto fosco, e observe com uma lupa ou lente de aumento. É a mesma recomendação da ABDO: essa combinação costuma “revelar” as marcas mesmo em lentes tratadas.
- Segure a lente contra uma luz difusa, uma janela ou um teto iluminado, e incline levemente. A área gravada reflete a luz de forma diferente da superfície polida ao redor.
- Respire levemente sobre a lente. O embaçamento desaparece de forma desigual sobre a área gravada, deixando as marcas visíveis por um ou dois segundos antes que a superfície seque. Funciona melhor em lentes de vidro e com a lente fria.
- Em óticas que atendem muitos fabricantes diferentes, um identificador de marcações com luz de fundo agiliza esse processo e pode cruzar o código com o banco de dados do fabricante.
Depois de localizar as duas marcas de alinhamento, um procedimento consolidado entre ópticos brasileiros, descrito por Paulus Maciel no Portal Opticanet, ajuda a remarcar a lente com precisão: marque as gravações a laser temporais e nasais com uma caneta de tinta branca removível, sobreponha os dois pontos ao gabarito de remarcação do fabricante e complete os pontos correspondentes ao prisma, à cruz de montagem e ao campo de perto (Opticanet, Lensometria em lentes progressivas). Feito isso para as duas lentes, o layout de tinta está pronto para ser conferido no lensômetro. Depois de restaurar o layout, confira a adição e o prisma reais contra os valores gravados usando um lensômetro digital antes de devolver os óculos ao cliente.
Usando as Gravações para Conferir o Ajuste e Investigar Reclamações
Quando um cliente volta reclamando de não adaptação, as gravações permanentes são o caminho mais rápido para descartar um erro de fabricação ou de pedido antes de refazer a refração ou reconferir a altura de segmento ou a distância vértice. Se o PRP definido pelas gravações não coincide com onde a cruz de montagem de tinta foi posicionada na adaptação óptica, ou se a adição gravada não bate com o pedido, isso já é motivo para devolver a lente ao laboratório em vez de repetir o exame de refração. Boa parte dos erros que elevam a taxa de refação em lentes progressivas tem exatamente essa raiz: um descompasso entre onde as gravações dizem que a lente foi construída para se posicionar e onde ela foi de fato montada.
O que as gravações não dizem é se a armação foi ajustada à distância pupilar ou à altura de segmento corretas desde o início. Elas só confirmam o que a lente em si foi fabricada para ser. Uma medição precisa de adição, DP e altura de segmento no momento da adaptação óptica é o que evita que a cruz de montagem se desloque a ponto de precisar de restauração. Em receitas de grau alto, vale também reconferir a distância vértice, já que ela afeta o grau efetivo entregue ao cliente.
Perguntas Frequentes
Como encontrar as marcações ocultas em lentes progressivas?
Incline a lente sob uma fonte de luz forte, contra um fundo preto fosco, e observe com uma lupa; a ABDO destaca que essa combinação costuma revelar as marcas mesmo em lentes tratadas com antirrisco e antirreflexo. Respirar levemente sobre a lente também funciona: o embaçamento desaparece de forma desigual sobre a área gravada por um ou dois segundos. Em óticas que atendem muitas marcas, um identificador de marcações com luz de fundo agiliza o processo e cruza o código com o fabricante.
Como saber se uma lente é progressiva e não de visão simples?
Segure a lente a alguns centímetros de uma linha reta, o batente de uma porta serve, e incline de um lado para o outro. Uma lente progressiva produz uma distorção ondulada, tipo “efeito de natação”, na parte inferior por causa da mudança contínua de potência no corredor; uma lente de visão simples não faz isso. Para confirmar, procure as duas marcas de alinhamento permanentes a cerca de 34 mm de distância, perto do centro horizontal, e veja a gravação sob a marca temporal: um valor de adição ali confirma que é uma lente progressiva.
Onde fica gravada a adição em uma lente progressiva?
Diretamente abaixo da marca de alinhamento temporal, do lado da orelha, expressa em dioptrias. Tanto as diretrizes do The Vision Council quanto a referência técnica da ABDO descrevem essa mesma posição. O código numérico exato é definido por cada fabricante, então uma gravação desconhecida vale a pena checar na tabela de identificação daquela marca em vez de supor um formato universal único.
O que é a cruz de montagem e qual a diferença para as gravações permanentes?
A cruz de montagem é uma marca de tinta temporária, usada como ponto de referência para posicionar a lente diante do olho do cliente durante a adaptação óptica. Diferente das gravações de alinhamento, ela sai com a limpeza e precisa ser reaplicada a partir do gabarito de remarcação do fabricante quando se perde.
As gravações de lentes progressivas são padronizadas entre fabricantes?
O espaçamento e o posicionamento são padronizados. A ISO 8980-2 e a norma ANSI Z80.1 especificam marcas de alinhamento a 34 mm de distância, gravação de adição abaixo da marca temporal e gravação de marca/desenho abaixo da marca nasal. Já os códigos específicos usados para adição, material e desenho variam por fabricante e por linha de lente, o que torna necessário consultar a tabela de cada marca.
Por que às vezes é possível ver as marcas de alinhamento com os óculos no rosto?
Segundo a referência técnica da ABDO, isso costuma acontecer em lentes sem tratamento antirreflexo. O tratamento antirrisco ou antirreflexo reduz a visibilidade das marcas, então trocar por uma lente tratada ou aplicar o tratamento geralmente resolve a reclamação do cliente.

Cresci dentro de uma ótica. Quando criança, eu gostava de ver os óculos serem montados, brincava com as ferramentas e desenhava nos talões de serviço. Foi no negócio da família que aprendi cedo o valor de uma medida precisa e de um trabalho bem feito.
Segui a carreira de engenheiro de software, com mais de vinte anos de experiência, mas sempre de olho no mercado ótico. O Optogrid nasceu desse encontro: tecnologia de medição digital (distância pupilar e altura de montagem) criada por quem conhece o balcão da ótica por dentro.
