Skip to content
Adição em multifocal

Adição em Receita de Multifocal: Como Entender e Aplicar Corretamente

A Adição (AD ou ADD) é o poder positivo extra prescrito pelo oftalmologista para compensar a perda de acomodação do cristalino em pacientes com presbiopia. Ela é somada ao grau de longe para obter a correção efetiva para perto, e nunca substitui nem representa isoladamente o grau de perto. Um paciente com -1,00 para longe e AD +2,00 terá grau de perto efetivo de +1,00 (+2,00 – 1,00 = +1,00).

Se você precisa de referência para os outros campos da receita, o guia completo de como ler a receita de óculos cobre ESF, CIL, eixo, OD e OE e os sinais positivo e negativo. Se a caligrafia do prescritor dificultar a leitura do valor, o guia sobre como traduzir a letra do médico em receitas pode ajudar.


O Que É a Adição: Definição Clínica e Função Óptica

O cristalino humano perde progressivamente a capacidade de mudar de curvatura para focar objetos próximos. Esse processo, chamado de presbiopia, resulta na diminuição da amplitude de acomodação com a idade. De acordo com o StatPearls (NIH/NCBI), a presbiopia manifesta-se sintomaticamente entre os 40 e 45 anos, com prevalência quase universal aos 60 anos.

A Adição compensa essa perda adicionando poder convergente ao polo inferior da lente, criando uma zona dedicada à visão de perto. Do ponto de vista óptico, a Adição é sempre um valor positivo (convergente) porque o objetivo é aproximar o ponto focal para distâncias de leitura, tipicamente entre 33 e 40 cm.

O campo Adição na receita indica:

  • Que o paciente tem presbiopia
  • Qual poder adicional é necessário para a zona de perto
  • Que lentes multifocais (progressivas, bifocais ou ocupacionais) são obrigatórias

Sem adição no campo, a receita não requer multifocal. Com qualquer valor de adição, a lente monofocal convencional é insuficiente para a visão de perto.


Como Ler o Campo AD na Receita

Notação e posição na receita

O campo aparece com diferentes abreviações dependendo do prescritor e do sistema:

NotaçãoSignificado
ADAdição (uso brasileiro predominante)
ADDAddition (uso internacional, frequente em softwares importados)
AO ou OUIndica que o mesmo valor se aplica a ambos os olhos

Na maioria das receitas brasileiras, o campo AD aparece após as colunas de ESF, CIL e eixo, frequentemente em uma posição compartilhada para OD e OE. Isso acontece porque a Adição é, na maioria dos casos, simétrica para os dois olhos. Quando os olhos têm adições diferentes (o que é clinicamente possível em presbiopia assimétrica), os valores aparecem separados por olho.

Intervalo de valores e unidade

Os valores de Adição são sempre expressos em dioptrias com sinal positivo implícito. O intervalo clínico típico vai de +0,75 a +3,50 dioptrias, podendo ocasionalmente chegar a +4,00 em casos especiais.

Conforme o StatPearls (NIH/NCBI), pacientes com presbiopia leve frequentemente necessitam de aumento de +0,75 a +1,25 dioptrias; presbiopia moderada exige entre +1,50 e +2,25 dioptrias; e presbiopia avançada requer +2,50 dioptrias ou mais.

Os valores seguem os incrementos padrão de prescrição de 0,25 dioptrias: +0,75, +1,00, +1,25, +1,50, +1,75, +2,00, +2,25, +2,50, +2,75, +3,00, +3,25, +3,50.

Cálculo do grau efetivo de perto

A fórmula é direta:

Grau de perto (OD) = ESF (longe) + AD

Se o cilindro estiver presente, ele permanece o mesmo para longe e perto. Somente o esférico é somado à adição.


Relação com Idade: Tabela de Adição por Faixa Etária

A tabela abaixo é um ponto de partida clínico, não uma determinação definitiva. Conforme o guia de prescrição de óculos para presbiopia do StatPearls (NIH/NCBI), a taxa de progressão da adição é de aproximadamente 0,25 dioptrias a cada dois anos entre os 40 e 50 anos, desacelerando para cerca de 0,25 dioptrias a cada oito anos após os 50 anos. A determinação final é sempre individualizada por teste de acomodação.

Uma referência prática da literatura de adaptação óptica estabelece: “A good rule of thumb to estimate the add up until the age of 60 is +0.50DS for every five years over the age of 35.” Isso produz os valores orientativos a seguir:

Faixa etáriaAdição típicaClassificação clínica
40 a 44 anos+0,75 a +1,25Presbiopia leve
45 a 49 anos+1,25 a +1,75Presbiopia leve a moderada
50 a 54 anos+1,75 a +2,25Presbiopia moderada
55 a 59 anos+2,25 a +2,75Presbiopia moderada a avançada
60 anos ou mais+2,50 a +3,50Presbiopia avançada

Ponto importante para o profissional de ótica: a adição na receita pode diferir dos valores da tabela por vários fatores: distância habitual de leitura do paciente, exigências visuais da profissão, resultado dos testes de acomodação relativa positiva (ARP) e negativa (ARN) realizados pelo oftalmologista, e grau esférico de base. Uma adição de +1,50 em um paciente de 55 anos não é erro de prescrição, pode simplesmente refletir que o paciente ainda conserva amplitude de acomodação residual ou prefere distância de trabalho maior.


Como a Adição Afeta a Escolha do Tipo de Lente

A mesma adição prescrita pode resultar em três geometrias de lente completamente diferentes, com implicações diretas para a adaptação óptica e para as medidas de montagem.

Lente progressiva (multifocal)

A progressiva distribui a adição ao longo de um corredor de progressão, partindo do grau de longe na zona superior até o grau completo de perto na zona inferior. Não há linha visível de separação. A adição determina diretamente a largura do corredor e das zonas laterais: adições mais altas comprimem o corredor e as zonas de visão intermediária, aumentando a distorção periférica.

Para a montagem, a progressiva exige a distância naso-pupilar (DNP) monocular e a altura do segmento com precisão de 1 mm. Um erro de 2 mm para baixo na altura do segmento posiciona a cruz de montagem abaixo da pupila e o paciente nunca encontra o corredor de progressão.

Lente bifocal

A bifocal tem dois campos distintos separados por uma linha visível. A adição determina o poder da segmento inferior (o “D” ou segmento redondo). A zona de visão intermediária (computador, 60 cm a 1,5 m) não existe nesse design. A altura de montagem é calculada com referência ao limite inferior do segmento bifocal, não ao centro da pupila.

Lente ocupacional (multifocal de perto e intermediário)

Projetada para usuários que passam longos períodos olhando para tela ou fazendo leitura, a ocupacional inverte a lógica da progressiva convencional: a zona de intermediário fica mais ampla e o grau de longe é reduzido ou eliminado. A mesma adição prescrita na receita é usada pelo laboratório, mas a geometria prioriza distâncias de 40 cm a 1,5 m. Para pacientes com adição acima de +2,00 e uso intenso de computador, a lente ocupacional pode ser mais confortável que a progressiva convencional.

Resumo comparativo

CritérioProgressivaBifocalOcupacional
Visão de longeSim (zona superior)Sim (zona superior)Não (ou reduzida)
Visão intermediáriaSim (corredor)NãoSim (zona ampla)
Visão de pertoSim (zona inferior)Sim (segmento)Sim (zona inferior)
Linha visívelNãoSimNão
Altura de segmentoCentro da pupilaLimite do segmentoCentro da pupila
Melhor paraUso contínuo e variadoLonge + perto, custo menorUso intenso de tela/leitura

Erros Comuns na Interpretação da Adição

Erro 1: Confundir a Adição com o grau de perto

O equívoco mais frequente em óticas com recepção de receitas por funcionários não treinados é transcrever o valor AD como se fosse o grau completo para perto. A Adição é um incremento, não uma receita independente.

Correto: grau de perto = grau de longe (ESF) + AD
Incorreto: grau de perto = AD

Se uma receita traz OD: -2,00 e AD: +2,00, o grau de perto efetivo é plano (0,00), não +2,00. Lentes com +2,00 no polo de perto produziriam um desvio de 4,00 dioptrias em relação à prescrição correta.

Erro 2: Tratar a Adição como específica por olho quando ela é binaral

Na maioria das receitas, a adição é simétrica e aparece uma única vez ou com a notação AO (ambos os olhos). Transcrever valores diferentes para OD e OE quando a receita não especifica isso é incorreto.

Quando a adição for diferente por olho, o campo deve estar separado na receita com valores explícitos para OD e OE. Antes de assumir adições assimétricas, confirme com o prescritor se a diferença foi intencional.

Erro 3: Montar lente monofocal com grau de perto calculado manualmente

Ao calcular grau de longe + adição e solicitar lente monofocal com esse resultado, o técnico elimina qualquer possibilidade de visão de longe com esses óculos. Lentes monofocais de perto são válidas, mas devem ser prescritas como tal pelo oftalmologista. Nunca substitua a prescrição de multifocal por monofocal calculada empiricamente.

Erro 4: Aceitar receita sem adição para solicitar progressiva

Sem adição prescrita, não há base clínica para fabricar lentes progressivas. Se o paciente relata dificuldade de perto mas a receita não tem adição, o caminho correto é orientá-lo a retornar ao oftalmologista para complementação da prescrição.

Quando consultar o prescritor

Situações que justificam contato com o consultório antes de dar início à montagem:

  • O campo AD está preenchido mas sem valor legível
  • A adição parece discrepante para a faixa etária (ex: +3,00 em paciente de 42 anos sem histórico descrito)
  • A receita tem adições muito diferentes por olho (ex: OD +1,00 e OE +2,25) sem nenhuma anotação explicativa
  • O paciente informa que a receita anterior tinha adição diferente e questiona a mudança

Relação com DNP e Altura do Segmento na Montagem

A adição determina a geometria da lente, mas a execução correta da montagem depende de duas medidas antropométricas independentes: a distância naso-pupilar (DNP) e a altura do segmento.

Distância naso-pupilar (DNP): define o centramento horizontal da lente. Para lentes progressivas, a cruz de montagem deve coincidir com o centro da pupila na posição primária do olhar. Um erro de 1 mm na DNP monocular já desloca o eixo visual para fora da faixa de progressão, induzindo aberrações e desconforto.

Altura do segmento: define o centramento vertical. Para progressivas, a altura é medida da borda inferior da armação até o centro da pupila, com o paciente usando a armação na posição de uso e olhando diretamente para frente. A adição influencia indiretamente a altura mínima necessária: adições mais altas costumam exigir armações com altura interna de pelo menos 28 a 30 mm para que as zonas de longe, intermediário e perto sejam utilizáveis.

Para pacientes que compram armações online ou que precisam de medição remota, ferramentas de medição digital como o Optogrid obtêm a DNP monocular a partir de fotos com smartphone, reduzindo o risco de erro de centramento que compromete a adaptação.


Exemplos de Receitas com Interpretação Completa

Exemplo 1: Presbiopia inicial em míope leve

         ESF      CIL    EIXO   AD
OD:    -1,50   -0,50    170°   +1,25
OE:    -1,25   -0,50    175°   +1,25
DNP:   32/31 mm

Interpretação: Paciente com miopia leve e astigmatismo bilateral simétrico, provavelmente entre 42 e 48 anos pelo valor da adição. A DNP monocular de 32 mm (OD) e 31 mm (OE) indica assimetria facial leve, o que é normal. O grau efetivo de perto será:

  • OD: -1,50 + 1,25 = -0,25 (próximo de plano)
  • OE: -1,25 + 1,25 = plano

Lente indicada: progressiva. O cilindro -0,50 permanece o mesmo para longe e perto.


Exemplo 2: Presbiopia moderada em présbita puro

         ESF      CIL    EIXO   AD
OD:    +0,50     ---     ---    +2,00
OE:    +0,50     ---     ---    +2,00
DNP:   33/33 mm

Interpretação: Paciente hipermétrope leve com presbiopia moderada, estimativa de 50 a 56 anos. Sem astigmatismo em nenhum dos olhos. Grau efetivo de perto:

  • OD e OE: +0,50 + 2,00 = +2,50

Lente indicada: progressiva ou bifocal. Se o paciente trabalha muito em computador, lente ocupacional com zona intermediária ampliada pode ser mais confortável. Atenção: a DNP monocular 33/33 mm indica face simétrica.


Exemplo 3: Presbiopia avançada em míope moderado

         ESF      CIL    EIXO   AD
OD:    -3,00   -1,25     90°   +2,75
OE:    -2,75   -1,00     85°   +2,75
DNP:   31/30 mm

Interpretação: Miopia moderada com astigmatismo bilateral e presbiopia avançada, estimativa acima de 58 anos. O grau efetivo de perto:

  • OD: -3,00 + 2,75 = -0,25
  • OE: -2,75 + 2,75 = plano

Ponto de atenção: com adição de +2,75 e miopia moderada, o paciente com essa combinação frequentemente consegue enxergar de perto sem óculos (utilizando a própria miopia). Caso o paciente relate isso, é clinicamente esperado e correto. A progressiva ainda é necessária para a visão de longe e para a postura adequada de leitura.


Exemplo 4: Adições assimétricas por olho

         ESF      CIL    EIXO   AD
OD:    +1,00   -0,75    160°   +2,25
OE:    +1,00   -0,75    155°   +2,50
DNP:   32/31 mm

Interpretação: Hipermetropia leve com astigmatismo bilateral e adições diferentes por olho, indicando presbiopia mais avançada no OE. Isso é clinicamente válido: a presbiopia pode ser ligeiramente assimétrica. O grau efetivo de perto:

  • OD: +1,00 + 2,25 = +3,25
  • OE: +1,00 + 2,50 = +3,50

Se a receita tivesse apenas um campo AD sem especificação por olho, o correto seria aplicar o mesmo valor para ambos. Com adições diferentes explicitamente especificadas por olho, o laboratório precisa dos dois valores separados no pedido.


Perguntas Frequentes

O que é a Adição na receita de óculos?

A Adição (AD ou ADD) é o poder positivo extra prescrito para compensar a perda de foco de perto causada pela presbiopia. Ela é somada ao grau de longe para calcular o grau efetivo de perto. Sem adição, a receita não requer lente multifocal. Com qualquer valor de adição, a lente progressiva, bifocal ou ocupacional é obrigatória.

Como calcular o grau de perto a partir da Adição?

Some o grau esférico (ESF) de longe com o valor da Adição (AD). Exemplo: ESF -1,50 + AD +2,00 = grau de perto +0,50. O cilindro e o eixo não mudam entre longe e perto; apenas o esférico recebe o acréscimo da adição. Nunca use o valor da Adição isolado como grau de perto.

A Adição é sempre igual nos dois olhos?

Na maioria das prescrições sim, e nesses casos aparece uma única vez na receita ou com a notação AO (ambos os olhos). Adições assimétricas por olho são clinicamente possíveis, mas devem estar explicitamente indicadas na receita com valores separados para OD e OE. Se a receita não especifica, aplique o mesmo valor para os dois olhos.

Qual o valor máximo de Adição que pode ser prescrito?

O intervalo clínico habitual vai de +0,75 a +3,50 dioptrias. Valores acima de +3,50 são tecnicamente fabricáveis mas muito pouco comuns, reservados a casos específicos de presbiopia avançada com exigências visuais de perto muito próximo. A maioria dos fabricantes de lentes progressivas oferece adições até +3,50 como padrão de linha.

Por que a Adição de +2,00 em receitas mais antigas pode ter mudado para +2,25 na receita nova?

A presbiopia progride ao longo do tempo conforme o cristalino perde elasticidade. O aumento da adição em consultas subsequentes é esperado e normal. A taxa de progressão típica é de +0,25 dioptrias a cada dois anos entre os 40 e 50 anos, desacelerando após os 50. Uma mudança de +0,25 dioptrias entre consultas com intervalo de um a dois anos não indica nenhum problema.

Qual a diferença entre lente progressiva e bifocal para um mesmo valor de Adição?

A Adição prescrita é a mesma para os dois tipos de lente. A diferença está na geometria: a progressiva distribui a adição ao longo de um corredor suave sem linha visível, incluindo a zona intermediária; a bifocal tem dois campos separados por uma linha visível, sem zona intermediária. O paciente usa a mesma adição em ambas, mas com experiências de uso e exigências de montagem diferentes.

A Adição influencia a medida de altura do segmento?

Sim, indiretamente. Adições mais altas exigem que a zona de perto seja mais facilmente acessível, o que requer armações com altura interna maior (geralmente no mínimo 28 a 30 mm para progressivas com adição acima de +2,00). A altura do segmento em si é medida do centro da pupila até a borda inferior da armação, e deve ser informada ao laboratório junto com a DNP monocular para garantir o centramento correto da lente.