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Teste de Daltonismo: Tipos, Como Funciona e O que os Resultados Significam

Resposta Rápida: O teste de daltonismo mais usado no mundo é o Teste de Ishihara, que consiste em placas com números formados por pontos coloridos. Para triagem geral em consultório, o Ishihara é suficiente. Quando é necessária uma classificação precisa do tipo e da gravidade da deficiência — como em contextos ocupacionais ou para condução de veículos — usa-se o anomaloscópio de Nagel ou o teste de Farnsworth D-15. Qualquer pessoa com suspeita de dificuldade na percepção de cores deve consultar um optometrista ou oftalmologista.


O que é daltonismo e como ele afeta a visão

O daltonismo, ou discromatopsia, é uma condição visual em que a capacidade de distinguir certas cores está reduzida ou ausente. Ela ocorre por anomalias nos cones da retina — as células fotossensíveis responsáveis pela percepção das cores. Cada tipo de cone responde a um comprimento de onda diferente da luz: vermelho (cones L), verde (cones M) e azul (cones S). Quando um ou mais desses cones estão ausentes ou funcionam de forma anômala, ocorre o daltonismo. A quantidade de luz que atinge esses cones é regulada pela pupila, que dilata ou contrai conforme a luminosidade ambiente.

A condição é predominantemente hereditária e ligada ao cromossomo X, o que explica a diferença de prevalência entre os sexos. Segundo estudo publicado no Journal of the Optical Society of America (Birch, 2012), “a prevalência de deficiência em caucasianos europeus é de cerca de 8% nos homens e cerca de 0,4% nas mulheres”. A Academia Americana de Oftalmologia (AAO) aponta que “estima-se que um em cada dez homens tenha alguma forma de deficiência de cor”.

Para compreender por que os cones falham, é útil conhecer a anatomia dos olhos e o papel de cada estrutura na formação da imagem.


Tipos de daltonismo: classificação clínica completa

O daltonismo é classificado conforme o número de cones funcionais e qual deles está comprometido.

Tricromático anômalo (três cones, um funcionando mal)

É o tipo mais comum. Todos os três cones estão presentes, mas um responde de forma anômala.

  • Protanomalia: os cones L (vermelhos) têm sensibilidade reduzida. O vermelho é percebido com menor brilho e frequentemente confundido com verde ou marrom.
  • Deuteranomalia: os cones M (verdes) funcionam de forma anômala. É a forma mais prevalente de daltonismo. O verde é percebido de modo alterado e confundido com vermelho ou amarelo.
  • Tritanomalia: os cones S (azuis) são deficientes. Azul e verde parecem semelhantes; amarelo e violeta podem se confundir. Rara.

Dicromático (dois cones funcionais, um ausente)

Um dos três tipos de cones está completamente ausente, deixando apenas dois tipos de fotorreceptores para perceber as cores.

  • Protanopia: ausência de cones L (vermelhos). O vermelho é percebido como preto ou cinza escuro. Difícil distinguir cores que contêm vermelho.
  • Deuteranopia: ausência de cones M (verdes). Verde, vermelho e amarelo tornam-se indistinguíveis em muitas combinações.
  • Tritanopia: ausência de cones S (azuis). Azul e verde se confundem; amarelo e violeta também. Rara e distribuída igualmente entre homens e mulheres, pois não é ligada ao cromossomo X.

Acromático (monocromático)

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O tipo mais raro e mais severo. A pessoa vê apenas em tons de cinza, porque todos os cones estão ausentes ou não funcionam. Também chamado de acromatopsia, tem prevalência estimada em 1 para cada 30.000 pessoas e frequentemente está associado a fotofobia (sensibilidade intensa à luz) e baixa acuidade visual.


Os quatro principais testes de daltonismo: como cada um funciona

Existem diferentes métodos diagnósticos para o daltonismo, cada um adequado a uma finalidade específica.

Teste de Ishihara

Criado pelo oftalmologista japonês Shinobu Ishihara em 1918 para triagem militar, o Teste de Ishihara é hoje o método mais utilizado globalmente. Consiste em 38 placas (ou versões reduzidas com 14 ou 24 placas) com círculos formados por pontos coloridos de diferentes tamanhos e intensidades. Dentro desse padrão de pontos, números ou caminhos são formados por pontos de cor diferente do fundo — visíveis apenas para quem tem visão de cores normal, ou legíveis de forma diferente para quem tem deficiência.

Segundo a AAO, o Ishihara é “um dos testes de daltonismo mais comuns e confiáveis”. A análise publicada no British Journal of Ophthalmology (Lakowski, 1997) quantificou seu desempenho: “a sensibilidade combinada das placas de transformação e desaparecimento da edição de 38 placas é de 95,5% com oito erros, 97,5% com seis erros e 99,0% com três erros”.

Limitações: o Ishihara detecta deficiências vermelho-verde com alta sensibilidade, mas é menos eficaz para identificar deficiências azul-amarelo (tritanopia/tritanomalia) e não permite classificar com precisão a gravidade da condição.

Anomaloscópio de Nagel

O anomaloscópio de Nagel é considerado o padrão-ouro para diagnóstico e classificação das deficiências de visão cromática. O equipamento apresenta ao paciente dois campos luminosos lado a lado: um de cor amarela fixa e outro ajustável, formado por uma mistura de luzes vermelha e verde. O paciente regula a proporção de vermelho e verde até que o campo ajustável pareça idêntico ao campo amarelo.

Conforme o NCBI Bookshelf (Procedures for Testing Color Vision), “o anomaloscópio é o único instrumento clínico para o diagnóstico e a classificação” das deficiências de visão cromática congênitas ligadas ao cromossomo X. A amplitude do intervalo de ajuste aceito pelo paciente indica o tipo exato de deficiência (protanopia, deuteranopia, protanomalia ou deuteranomalia) e a sua gravidade.

Limitações: alto custo, requer treinamento especializado em colorimetria para operar e interpretar, e o exame é demorado. Por isso, é reservado para contextos clínicos especializados ou habilitação profissional com requisitos rigorosos.

Teste de Farnsworth D-15

O teste de Farnsworth D-15 (dicotômico) consiste em 15 tampões coloridos que o paciente deve arranjar em sequência de acordo com a semelhança de cor percebida. A sequência esperada segue uma ordem cromática definida; desvios cruzados nessa sequência revelam o eixo de confusão de cores e a gravidade da deficiência.

O D-15 foi concebido como teste dicotômico: sua finalidade é separar pessoas com deficiência grave daquelas com deficiência leve ou visão normal. É amplamente usado em avaliações ocupacionais — como habilitação para pilotos, motoristas de veículos de emergência e operadores de sistemas com código de cores crítico — porque é rápido e portátil.

A versão dessaturada (Lanthony D-15) usa tampões com saturação mais baixa e é mais sensível para detectar deficiências leves e condições adquiridas de daltonismo (causadas por doenças como glaucoma, retinopatia diabética ou exposição a toxinas).

Teste de Holmgreen (lãs coloridas)

O teste das lãs de Holmgreen usa mechas de lã de diversas cores. O paciente deve agrupar as lãs de acordo com a cor percebida. É um método simples, barato e de fácil aplicação em triagens iniciais, mas tem menor precisão diagnóstica comparado aos métodos anteriores. Hoje em dia é menos frequente em consultórios modernos.


Quem deve fazer o teste de daltonismo

O teste de daltonismo é indicado para:

  • Crianças em idade escolar: dificuldades visuais com cores podem interferir no aprendizado (uso de gráficos coloridos, mapas, código de cores em matemática e ciências). Triagem recomendada antes do ingresso escolar.
  • Pessoas com histórico familiar: o daltonismo vermelho-verde é hereditário — filhos de mães portadoras do gene têm 50% de chance de ser afetados.
  • Candidatos a profissões com requisitos visuais: pilotos, motoristas profissionais, militares, eletricistas e cirurgiões frequentemente necessitam de avaliação formal.
  • Adultos com queixas novas de confusão de cores: daltonismo adquirido pode ser sinal de doenças oculares (glaucoma, degeneração macular) ou sistêmicas (diabetes, esclerose múltipla) — deve ser investigado por oftalmologista. Outros sinais que merecem atenção incluem olho tremendo persistente, que também pode indicar condições neurológicas subjacentes.
  • Antes de procedimentos que afetam os cones: cirurgias ou tratamentos com potencial impacto na retina.

O que os resultados do teste significam

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Os resultados variam conforme o teste utilizado:

No Ishihara:

  • Leitura correta de todas as placas: visão cromática normal
  • Erros nas placas de transformação e desaparecimento: suspeita de deficiência vermelho-verde
  • Padrão de erros diferente: indica tipo de deficiência (protan ou deutan)
  • O teste não fornece gravidade — apenas triagem positiva ou negativa

No anomaloscópio de Nagel:

  • Intervalo de ajuste estreito, centrado no ponto normal: visão cromática normal
  • Intervalo amplo: tricromacia anômala (quanto maior o intervalo, mais grave)
  • Aceite de qualquer mistura (intervalo total): dicromacia confirmada (protanopia ou deuteranopia)
  • Redução de brilho do campo vermelho: indica protanomalia ou protanopia

No Farnsworth D-15:

  • Sequência sem cruzamentos: visão normal ou deficiência leve
  • Cruzamentos diametralmente opostos: deficiência moderada a grave; o eixo dos cruzamentos indica o tipo (protan, deutan ou tritan)

Um resultado positivo no Ishihara deve sempre ser confirmado por avaliação completa com optometrista ou oftalmologista, especialmente quando o daltonismo tiver implicações ocupacionais ou surgir na vida adulta. Daltonismo adquirido pode indicar doença ocular subjacente que precisa de tratamento.

O teste de daltonismo faz parte de uma avaliação visual completa que também inclui o teste de acuidade visual e outros exames complementares.


Como o daltonismo é tratado: o que funciona e o que não funciona

Não existe cura para o daltonismo congênito. O que existe são estratégias de adaptação e, em alguns casos, dispositivos que melhoram a discriminação de certas cores.

Óculos e lentes com filtros de cor (como ChromaGen e EnChroma) alteram a forma como as cores chegam ao olho, aumentando o contraste entre vermelho e verde para alguns pacientes. No entanto, revisão sistemática e meta-análise publicada no PLOS ONE (2022) concluiu que esses dispositivos “não fornecem evidências clinicamente significativas de melhora na percepção subjetiva de cores” para a maioria dos pacientes testados. Os efeitos são modestos, variam muito entre indivíduos e cessam quando os óculos são retirados.

Aplicativos de identificação de cores (disponíveis para iOS e Android) usam a câmera do smartphone para nomear cores em tempo real. São ferramentas práticas para o dia a dia que não dependem de evidências clínicas de eficácia — simplesmente cumprem uma função de acessibilidade.

Adaptações ambientais e educacionais: uso de etiquetas, legendas não dependentes de cor, software com paletas acessíveis e comunicação com empregadores e escolas são as estratégias com maior impacto comprovado na qualidade de vida.

Para daltonismo adquirido — causado por doença ou medicamento — o tratamento da condição subjacente pode estabilizar ou parcialmente reverter a deficiência. Nesses casos, o acompanhamento regular com oftalmologista é essencial.


Perguntas frequentes sobre o teste de daltonismo

O que é o teste de daltonismo?
É um exame clínico que avalia a capacidade de perceber e distinguir cores. Os tipos mais comuns são o Teste de Ishihara (placas com números coloridos), o anomaloscópio de Nagel (ajuste de mistura de luzes) e o Farnsworth D-15 (arranjo de tampões coloridos em sequência). Cada teste tem finalidade e precisão distintas.

O teste de Ishihara é preciso?
Sim, para triagem de deficiências vermelho-verde. Estudos publicados no British Journal of Ophthalmology mostram sensibilidade de até 99% com a edição de 38 placas. O Ishihara não é indicado para classificar a gravidade da deficiência — isso requer anomaloscópio.

Qual é a diferença entre o Ishihara e o Farnsworth D-15?
O Ishihara é uma triagem: identifica se há ou não deficiência vermelho-verde. O Farnsworth D-15 é um teste de arranjo que separa deficiências graves de leves e indica o eixo de confusão de cores. O D-15 é mais usado em avaliações ocupacionais; o Ishihara, em triagem geral de consultório.

Criança pode fazer o teste de daltonismo?
Sim. Existem versões do Ishihara com formas simples (círculos e caminhos) em vez de números, adequadas para crianças pré-escolares. Triagem visual com 3 a 5 anos é recomendada por protocolos internacionais para detectar tanto acuidade reduzida quanto deficiências de cor antes do ingresso escolar.

O daltonismo tem cura?
O daltonismo congênito não tem cura. Terapias gênicas estão em investigação para formas específicas de acromatopsia, mas não estão disponíveis clinicamente. Óculos com filtros de cor (ChromaGen, EnChroma) melhoram o contraste para alguns pacientes com deficiências leves, mas os efeitos variam e cessam ao remover os óculos.

O daltonismo está relacionado a outras condições oculares?
O daltonismo congênito é uma condição isolada que afeta exclusivamente a percepção de cores. Porém, existem outras variações genéticas que influenciam a aparência e o funcionamento dos olhos — como a heterocromia, em que a pessoa apresenta olhos de cores diferentes devido à distribuição desigual de melanina na íris. Embora sejam condições distintas, ambas têm origem genética e não comprometem a saúde visual na maioria dos casos.

Daltonismo impede dirigir?
Depende da legislação local e do grau de deficiência. No Brasil, o CONTRAN estabelece requisitos de aptidão visual para habilitação; deficiências cromáticas graves podem restringir certas categorias. Avaliação com oftalmologista é necessária para determinar a aptidão.

Qual profissional realiza o teste de daltonismo?
Optometristas e oftalmologistas. O optometrista realiza a triagem de rotina (Ishihara, D-15) e prescreve lentes. O oftalmologista é indicado quando há suspeita de daltonismo adquirido por doença ocular ou quando é necessário exame com anomaloscópio para classificação precisa.


Referências

  1. Birch J. Worldwide prevalence of red-green color deficiency. Journal of the Optical Society of America A. 2012;29(3):313–320. PubMed PMID 22472762
  2. Lakowski R. Efficiency of the Ishihara test for identifying red-green colour deficiency. British Journal of Ophthalmology. 1969. PubMed PMID 9390366
  3. American Academy of Ophthalmology. What Is Color Blindness? aao.org
  4. American Academy of Ophthalmology. How Color Blindness Is Tested. aao.org
  5. National Research Council (US) Committee on Vision. Procedures for Testing Color Vision. Washington (DC): National Academies Press. NCBI Bookshelf. ncbi.nlm.nih.gov
  6. Almustanyir S et al. Color vision devices for color vision deficiency patients: A systematic review and meta-analysis. PLOS ONE. 2022. PubMed PMID 36189411